e distinguir nas sombras o limiar entre a loucura e o sonho...
Seria tão mais eu quanto sou hoje
e dormiria aconchegada sobre a leveza desta tristeza
sem segredos nem embustes.
No entanto foge-me o chão debaixo dos pés
e os sonhos misturam-se com a neblina dos medos,
num cenário de frescura onírico
como os dos contos de fadas sem finais felizes...
Hoje não me conheço e ontem não me lembrei de ser quem sou.
Por isso perdi-me na insónia do caminho
e morri à sede em frente da fonte do presente
à espera de vislumbrar nela o reflexo do futuro...
Tornou-se tarde como as tardes em que tardei
e o comboio partiu ao longe sem mim.
A vida não espera por quem lhe pede tempo para a conhecer
e foge ao sentir a estagnação das águas no corrimento dos rios.
Eu estagnei por instantes
quando olhei para trás e temi o trilho do caminho.
Estagnei por instantes de olhos fechados ao ouvir a diligência dos condenados ao longe
e não me apercebi que a condenada era eu...
Quando abri os olhos vi-me sozinha
e o caminho já de lá desaparecera
na poeira que o levou por entre o rodopiar da diligência
e o comboio ao longe seguiu sem uma última chamada.
in Resquícios de um conto inacabado,
Ana Limão Ferreira, Edium Editores
Ana Limão Ferreira, Edium Editores
